14 de jul de 2014

A Sombra de um Lobo

Graças aos céus, ou por eu ser muito legal (mentira, sou uma chata in suportável T^T), tenho amigos talentosos que me presenteiam com obras de arte, desde poemas como o "À Ruby" de meu amigo Igor Machado, a histórias com meu ídolo favorito: Kim JongHyun do SHINee, e hoje, postarei a história que a minha amiga maravilhosa e talentosa Larissa Veronese. 
Espero que gostem, tanto quanto eu



         A noite estava escura e a lua banhava a cidade com a sua luz prateada. Era assim que Ruby gostava. Nenhuma nuvem no céu, mas sem estrelas. Apenas a lua cheia. Imponente e solitária, reinando absoluta em meio à escuridão.
         Ruby, da sacada do quarto, fitava com seus olhos negros as pequenas vielas que separavam uma casa da outra e se estendiam até a praça mais à frente. Ninguém. Nenhuma pessoa àquela hora ousava sair de casa. Menos a nossa protagonista. Todas as sextas, após seu pesadelo, era isso que a menina fazia.
         Descendo pelo para-peito da sacada, em absoluto silêncio, como um gato, andava sozinha pelas vielas em direção à praça, onde se sentava na grande fonte seca e pensava em nada. Gostava do ar fresco da noite, do silêncio, da brisa acariciando sua pele e esvoaçando seus cabelos. Gostava da liberdade.
         Não tinha medo de nada. Já estava acostumada a fazer isso, e algumas vezes um cachorro que andava por ali a fazia companhia. A conversa era poupada para o dia, mesmo com os mais graves problemas, Ruby nesses momentos de liberdade noturna jamais abrira a boca. Não gostava de quebrar o silêncio que a abraçava.
         Os pesadelos haviam se tornado constantes desde a morte de sua melhor amiga Amanda. Então, sem se dar conta, a menina já fazia esse trajeto silencioso pelas vielas do pequeno bairro até a praça, uma vez por semana, no mesmo dia e praticamente, no mesmo horário.
         Em um dia extremamente quente, mais preciso em uma sexta, que traria uma noite com pesadelos como sempre, Ruby sentiu-se ser vigiada em sua volta da escola. Isso acontecia algumas vezes, graças aos vizinhos fofoqueiros que queriam inventar mais motivos para que a garota problemática do final da rua (se é que podíamos chamar aquelas vielas de ruas) fosse forçada à sair do bairro junto com sua mãe doente.
         A garota problemática, como os vizinhos diziam, era uma bruxa. Sempre sozinha e sempre calada. Não dava as caras de dia, apenas quando voltava da escola. Saía de noite e já fora flagrada muitas vezes em sua “caminhada” semanal, embora nenhum dos vizinhos se atrevessem a dizer uma palavra. Apenas observavam. Em silêncio. Das frestas dos portões, muros, ou janelas. Ela também não amigos. Não mais, depois da morte de Amanda.
         Mas nesse dia foi diferente. A pessoa que a observava parecia querer devorá-la, mas Ruby não descobria de onde os olhares vinham, apenas continuava em frente, tensa e se sentindo sufocada. Até chegar a porta de casa. Então, a sensação de estar sendo observada, como um inseto em um laboratório, passou, magicamente.
         O dia se seguiu normalmente, sem mais nada de estranho que chamasse a atenção de nossa protagonista. A noite, o pesadelo voltou a ocorrer e como sempre, Ruby abriu a porta da sacada para olhar para a escuridão noturna. Mas, havia algo de estranho. O céu estava tingido de vermelho. Um vermelho sangue. Profundo. Que quase engolia toda a cidade e as casas que se estendiam pela visão da menina. Era assustador, mas a noite chamava por ela, pelos seus passos silenciosos, pelos cabelos castanhos dançando com a brisa e pelos seus grandes olhos negros, atentos.
          “Talvez da praça, eu tenha uma visão melhor desse céu escarlate estranho” – Pensou ela e seguiu em frente, em direção à praça em meio à luz vermelha. Não havia lua, mas ela não ligou muito, queria saber o por quê daquele céu.
         Ao pisar no centro da praça um uivo alto foi ouvido. Primeiramente, a menina olhou por sobre os ombros em direção às casas, com medo de que alguém também tivesse ouvido e acordado com o barulho. Nada. Voltou seu olhar para frente. Uma sombra enorme se projetava. Uma sombra de um cachorro… “Ou um lobo” – falou para si mesma.
         Não sentia medo, apenas um arrepio, mais por curiosidade do que por receio. Manteve os olhos na sombra que ficava cada vez maior em direção à ela. De repente, o borrão negro da silhueta de um lobo, deu lugar à de um homem e Ruby olhou para os lados.
         Lá estava ele. Olhos orientais bem desenhados, o cabelo de um marrom escuro perfeito. Um olhar um pouco desafiador. Braços fortes. Um homem jovem. Era familiar. Diante dela, que a esta altura, estava estática com os olhos arregalados tentando entender.
         Ele se aproximou, nu. E ela deu dois passos para a trás, recuando.
         - Olá Ruby. Quanto tempo. – O jovem quebrou o silêncio.
         - Q-quem é você? – Ruby indagou com a voz falhada, com mais medo do que já teve em toda a sua vida. Olhou ao redor. O bairro continuava dormindo e a noite ia voltando ao seu negro de sempre.
         - Ora, quem sou eu. – Ele projetou um sorriso em meio à frase irônica e continuou - Você deveria saber. Estive sempre aqui. Todas as noites. – Completou dando ênfase ao “todas”.
         - Nunca tem ninguém aqui quando eu saio. – Rebateu a menina.
         - Tem certeza? E aquele lobo que vivia por aqui? – Ruby arregalou os olhos incrédula. Ligou uma coisa à outra. A sombra de um lobo que magicamente se transformou em uma sombra humana, um cachorro que vivia perambulando pela praça sempre que ela saia. Não. Isso era impossível.
         - Você quis dizer cachorro. – Rebateu ela novamente com a voz mais firme que conseguiu.
         Ele riu alto. E fitou os olhos negros da menina. Os dele eram mais negros que os dela. Um negro mais profundo que a escuridão. Um negro tão forte que era capaz de fazer Ruby cair a esmo nas profundezas de seu olhar.
         - Você realmente não sabe diferenciar um cão pulguento de um lobo.
         Ruby continuou imersa nos olhos do rapaz que continuava se aproximando. As imagens de seu pesadelo vinham à sua cabeça e esse rapaz era o que aparecia nele, ela reconhecia aqueles olhos negros. Sempre fedendo à cachorro, ele carregava-a nas costas por uma praia escura. A lua brilhava no céu, mas não iluminava. As ondas batiam, sem fazer barulho. Sua amiga, Amanda, aparecia pálida em meio à água escura do mar com os olhos abertos de cor vermelho escuro. Como o céu daquela noite.
         Com os pesadelos constantes, a menina tentava ir por outros lugares para não encontrar Amanda morta no chão. Mas era impossível. Ele sempre a carregava nas costas e para onde quer que iam, o cadáver pálido de olhos escarlate aparecia estirado no chão.
         Pela expressão de Ruby, o jovem já vira que ela entendeu tudo.
         - Meu nome é JongHyun. Kim JongHyun. – uma pausa longa se sucedeu, mas ele continuou – E você é a minha prometida.
         - Prometida? Você é um lobisomem, ou sei lá o que. O que você quer dizer com… – JongHyun a cortou.
         - Você se casará comigo. Foi um acordo entre nossas famílias. – Outra pausa e continuou, falando como se fosse a coisa mais óbvia do mundo. - “Na noite escarlate, o lobo virá à caça, se transformará em homem e uma humana escolherá.” Isso estava previsto. Você foi prometida à mim e eu a você. Faremos parte de uma linhagem não-humana a partir de agora. Você será como eu.
         - E se eu… – o olhar dele fazia com que Ruby perdesse o fôlego e as forças. Ele era… perfeito. - …me recusar? – Ela desafiou.
         - Então eu terei que leva-la à força. – Dizendo isso, lançou seu corpo contra o da menina, fazendo-a cair no chão frio.
         A princípio ela se rebateu, tentou se soltar. Mas JongHyun era mais forte e o peso dele contra o dela, a mantinha praticamente imóvel. Vendo que ela não tentaria mais se soltar, o jovem começou a beijá-la pelo pescoço, arrancando alguns suspiros da garota que ainda não se rendia totalmente.
         - Eu venho te observando há algum tempo… – sussurrou ao ouvido de Ruby - Da última vez, precisei te olhar mais de perto e você desconfiou.
         - Então era você! – Ela disse em um tom ameaçador, ignorando as carícias dele – E o que você pretende fazer agora? Me comer senhor Lobo Mau?!
         Ele sorriu:
         - A intenção é essa, mas não agora. – Agora, ele levantava sua blusa. A menina não se rebatia mais, parecia estar enfeitiçada por aqueles olhos negros orientais e apenas sentia seu corpo sob o dele, cada vez ansiando-o mais.
         JongHyun percebia a luta de Ruby em suas palavras. Ela não queria se entregar, mas também não era forte o suficiente para resistir. E ele se aproveitava disso como podia, continuando o que ele deveria fazer.
         Alguns minutos depois, Ruby já estava completamente entregue e os dois agora estavam caídos, um ao lado do outro, olhando para o céu que ia ficando mais claro, de um azul escuro.
         Os dois se olharam e os olhos de Ruby agora eram completamente iguais aos dele. Um negro profundo, misterioso. Eles agora eram um só. O acordo tinha sido cumprido e a menina problemática não existia mais. Agora era uma outra Ruby. Uma loba. A dama da noite. E seus dias deveriam ser passados ao lado de um lobo. À mercê da noite sombria e escura, da brisa noturna, da luz da lua. Uivos ecoaram pela praça. A liberdade que a menina sempre ansiou, agora tinha sido conquistada e ela não a perderia por nada.

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